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junho 30, 2005
O Taxista Fedorento
Tive o desprazer ontem de utilizar os serviços dos táxis que voam como varejeiras pelas "Chegadas" do aeroporto da Portela esperando vítimas com feridas abertas que possam sugar e alimentar os seus gordos ventres.
Embora devidamente aconselhado para evitar estes abutres, cometi o erro de escolher um Taxi nas "Chegadas" em vez de ter usado as "Partidas" ou mesmo um autocarro.
Coloquei-me pacientemente na fila e esperei pela minha vez. Quando esta chegou um japonê$ que se tinha confundindo e entrado no táxi errado (estava no meio da fila) sai deste e volta confuso ao começo da fila de táxis. É neste ponto que o taxista fedorento entra na história.
Esperando receber o turista japonê$ o fedorento (passarei de agora em diante a tratá-lo assim) julga acolher o dito mais uma choruda gorjeta e o longíssimo percurso que lhe iria impôr, mas, desilusão fatal, digo-lhe que não é a ele mas ao colega que estava na frente que competia transportar o japonê$. O fedorento fica danado, mete umas trompas mas aceita-me no taxi e entro neste.
Digo-lhe a direcção (no centro de Lisboa) e que diz o fedorento? "Com certeza.", "compreendido", "muito bem"? Nada. Rigorosamente nada. Um modelo de educação e de silêncio esfíngico.
Arranca de um golpe e leva-me como um doido pela cidade, sempre a mais de 180 Km! Passando semáforos! Chiando pneus nas curvas! Um verdadeiro louco do volante! Agarro-me ao assento rangendo os dentes, mas nada digo.
Quase a chegar ao destino, dou indicações mais precisas da morada. Resposta? Nenhuma... O silêncio mais profundo do mundo...
No momento de pagar a "corrida" (literalmente...) o valor é de 3,84 euro (normalmente pago entre 6 a 8, para que se veja a velocidade a que veio o fedorento). Como SEMPRE faço, digo que arredonde para 4, para facilitar os trocos (normalmente, os taxistas lamuriam-se sempre com os trocos). Em resposta, o tipo que recupera de súbito a fala e diz: "Aceito gratificações, mas não esmolas" e recusa o arrendondamento!
O que aconteceu daqui em diante, não será detalhado. Mas aquilo que escrevi já basta para constatar que os taxistas mais selvagens e ignóbeis continuam a frequentar as "Chegadas" do aeroporto da Portela, e que TODOS devemos ter muito cuidado com eles!
A fúria do fedorento vinha apenas do facto de ter perdido o seu sumarento japonê$ e de eu ter a infelicidade (para ele) de viver no centro de Lisboa!
Que gente! Que imagem da classe que estes tipos dão! Como é fácil obter uma carteira profissional! Porque é que a PJ interrompeu as suas acções de fiscalização a esta máfia de taxista que vivem das "Chegadas" da Portela? Porque é que o Ministério do Turismo não varre este lixo da principal porta de entrada do país e impede assim que muitos turistas fiquem com a imagem de Portugal que estes "fedorentos" lhe deixam? Porquê é que a ANTRAM não expulsa do seu seio estes taxistas que tanto prejudicam a imagem da sua classe?
Porquê?
Publicado por Rui Martins às junho 30, 2005 10:25 PM
Comentários
Lindo, valeu a pena a espera, parece que te estou a ver com uma mão agarrado ao banco, a outra no portátil, um joelho no casaco para segurar o palm e a vontade imensa, reflectida no olhar esgazeado que devias ter, de lhe dares um par de estalos.
Mas como te conheço e sei do teu pacifismo, também sei que não chegarias a esse ponto.
Por isso, mereces este poema do Eugénio de Andrade.
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
Publicado por: pf às junho 30, 2005 11:20 PM
A sua sorte é que eles não sabem ler e acham que a Internet é aquela televisão especial que só dá gajas nuas, ou já teria aqui uma manifestação a entupir-lhe o blogue.
Diverti-me com o seu relato.
Publicado por: zedtee às julho 1, 2005 08:42 PM
Já me aconteceu o mesmo, mas com comentários azedos durante o percurso todo e uma taxa de bagagem que não transportava, já que só trazia uma pasta nos joelhos. Perante o meu esboçar de reclamação, a ameaça do motorista foi de tal modo convincente, que optei por pagar e...calar! Lamento-o até hoje, mas o medo falou mais alto!
Publicado por: crack às julho 2, 2005 05:44 PM
E nas chegadas da Portela agora também já param por lá dezenas de taxis, e claro que não ficam contentes com um trajecto curtinho. Em Junho sofri as carrancas de um desses motoristas das chegadas e pensei num sistema que daria melhor disposição aos motoristas. Era assim. O cliente abeirava-se dos táxis e dizia o seu destino. Por exemplo, Rua Gonçalves Crespo, ao arquivo de identificação. Um delegado gritava para todos os taxistas ouvirem. O primeiro da fila dizia "passo". O segundo da fila também. Até que existia um n-ésimo taxista que aceitava a corrida. Ele ia contente, porque se tinha safo da bicha por um trajectinho que afinal também não era assim tão mau como isso. Todos ficavamos a ganhar (parece mesmo uma coisa à Guterres, pois é). E claro que havia o compromisso de, pelo menos, o último táxi na bicha aceitar o trajecto (mas esse também deverá ter entrado na fila uns instantinhos antes e deve ficar radioso de se pôr logo a andar). Isto falta é um bocado de imaginação para resolver conflitos.
Publicado por: Rui às julho 4, 2005 10:10 AM
Onde escrevi "chegadas" queria dizer "partidas"! Acho que se topa a distracção, mas aqui fica a correcção.
Publicado por: Rui às julho 5, 2005 01:09 PM