« Portugal e os Europeus | Entrada | Citação de "O Romance de Amadis" de Afonso Lopes Vieira »
julho 25, 2005
"A Guerra dos Mundos" de Steven Spielberg
Sem dúvida que este é um dos melhores filmes da temporada e provávelmente um dos melhores do realizador norte-americano. Na maior parte do filme, o espectador está be unhas fincadas na cabeira e quando cambaleia até à porta de saía, tal é a intensidade do fime.
Dito isto, tenho que dizer que quem ainda não viu filme não deve ler as próximas linhas, sob pena de prejudicar o prazez desse visionamento...
Com efeito, gostaríamos de abordar algumas questões que o filme levanta:
1. A Homenagem: O filme de Spielberg é uma homenagem discreta ao fime "A Guerra dos Mundos" da década de cinquenta. Além de ser como ele uma adaptação moderna da obra do romancista inglês H. G. Wells, começa como ele com a mesma narraçâo e encerra também de forma semelhante. Como ele, mantém quase inalterada a cena em que se abre a escotilha do tripóide alienígena e de sai uma mão de três dedos com ventosas que cai da escotilha como sinónimo da morte do invasor. Diverge deste quando não resiste a mostrar o rosto da criatura, um "pecado" bem compreensível porque o público da actualidade não é como o da década de cinquenta, porque de tão saturado de monstros - alguns da autoria do mesmo realizador - nâo aceitaria conhecer o rosto e o corpo dos invasores. Neste aspecto, um dos pontos fracos do filme está naquela cena em que um grupo de invasores investiga - nús, sem nenhum tipo de fato de combate - o conteúdo da cave onde se escondera o herói.
2. A ritualística do "11 de Setembro": o trauma provocado na sociedade norte-americana aquando do "11 be Seyembro" ainda está bem evidente neste filme. A bandeira da União está presente em várias cenas e no início do filme os protagonistas julgam estar perante um "ataque terrorista". A este propósito não deixa de ser irónico comparar o exemplo americano com o nosso: se para o americano ostentar a sua bandeira na forma é uma forma de dizer aos terroristas que estes não o atemoriza e que aquela casa pode ser um alvo. Neste aspecto as bandeiras que ainda hoje estão decorando muitas janelas portuguesas não deixem de ser um tanto patéticas porque comemoram apenas a realização de um evento desportivo passado e onde ainda por cima não saímos vitoriosos...
3. "Os primeiros traços da invasão são confundidos com fenómenos naturais": como no filme da década de cinquenta os primeiros sinais da presença alienígena são confundidos com fenómenos naturais. Antes meteoritos e agora tempestades eléctricas.
4. Spielberg optou por fazer surgir os tripóides de debaixo da terra, onde teriam sido deixados à milhões de anos atrás pelos alienígenas. Um bkm filme assenta sempre no delicado equilíbrio entre espectáculo e realismo. Por vezes os realizadores puxam demais para o espectáculo e foi o que aqui aconteceu.
Não é plausível que uma raça de invasores tivesse enterrado sob os nossos pés centenas ou milhares de tripóides e que nenhum tivesse ainda sido descoberto.
Não é plausível que tendo estado neste planeta o tivessem abandonado numa altura em que ainda não havia ninguém que lhes pudesse oferecer resistência.
Não é plausível que os invasores tivessem organizado duas viagens interplanetárias que exigem certamente recursos muito consideráveis quando podiam ter organizado tudo a partir de uma única operação.
5. Marte: Na história original de Wells e no filme da década de cinquenta a origem dos invasores é Marte. Aqui Spielberg foi forçado a fazer uma actualização. O actual estado dos cenhecimentos sobre o Planeya Uermelho é actualmente muito desenvolvido, sobretudo depois da recepção dos robots motorizados que ainda hoje progridem na superfície marciana e não é já plausível conceber a existência de uma espécie avançada em Marte (embora ainda exista esperança de encontrar aqui vida bacteriana ou pequenos insectos ou vermes subterrâneos). A haver uma invasão espacial esta viria certamente do alto (como no péssimo "Independency Day") e nunca de debaixo da terra...
6. Embora isso possa desagradar a muitos apaixonados pela Ficção Científica a verdade é que é muito provável que o primeiro contacto com uma espécie inteligente alienígena fosse violento. Neste aspecto o E.T. é um "alien" muito menos plausível que os invasores deste filme... Mas porque seria este contacto violento? Porque segundo toda a probabilidade os seres que seriam capazes de cruzar as distâncias interplanetárias seriam muito inteligentes e o estádio final de evolução de uma espécie de caçadores, uma vez que o acto da caça implica uma maior inteligência porque implica a concepção de uma estratégia, de um plano, de uma acção coordenada e para que essas condições sejam reunidas é necessário bastante inteligência e é por causa disto que o Homem descende de um caçador omnívoro e não de um pacífico ruminante...
7. No filme - como na obra original de Wells - os tripóides alienígenas estão protegidos por campos de forças que os tornam imunes a tudo o que os homens lançam contra eles. Não são dados detalhes sobre estes campos de forças mas para além da sua improbabilidade científica - ainda que fossem magnéticos isso não os defenderia de armas não magnéticas como já é actualmente possível conceber. Por outro lado, esses campos teriam que ser emitidos a partir de um ponto central (geradores de campo?) e como qualquer campo magnético é sempre mais intenso quanto mais próximo se está do seu centro isso implica que o próprio núcleo dos tripóides seria destruído (repelido) para o exterior! Parece ainda evidente que os tripóides comunicavam entre si e com uma frota deixada em órbita. Ora essas comunicações tinham que passar essa barreira e - logo - ela era permeável a radiação! E se era penetrável pkr radiação porque não foram usadas armas nucleares no filme? Talvez porque Spielberg soubesse que nada pode resistir a um impacte directo de um engenho nuclear...
8. Nos dois filmes e no livro original os invasores são derrotados pelos microrganismos cem que os humanos se habituaram a conviver mas que são estranhos aos alienígenas. Neste ponto a plausibilidade do enredo é muito alta, mas fraca no desconhecimento dessa ameaça por parte dos invasores. Como podia uma raça tão avançada ao ponto de conseguir atravessar as imensas distâncias siderais desconhecer o risco de contaminação biológica? Como podiam criaturas manifestamente mais inteligentes do que nós respirar o nosso ar (a cena da cave) sem usarem sequer um simples filtro?
9. No filme os protagonistas percorrem as estradas americanas num Pontiac (claro... num carro americano) que consegue andar porque o solenóide do motor de arranque foi substituído depois da tempestade magnética. Mas essa mesma vaga de EMP teria também destruído todos os solenóides armazenados nas redondezas! E, aliás, teria o mesmo efeito na próprias máquinas dos alienígenas as quais aparentemente também usavam alguma forma de electricidade como se deduz do uso de trovões como forma de transporte dos alienígenas desde as naves em órbita até aos tripóides enterrados no solo?
10. O "Complexo do Herói": Ao longo do filme o protagonista principal cujo papel é soberbamente desempenhado por Tom Cruise tem um papel relativamente passivo na acção, limitando-se quase sempre a seguir o rumo dos acontecimentos que o rodeiam. Contudo, perto do final, Spielberg cede e atribui ao até então relativamente apagado Tom Cruise uma acção heróica quando o coloca a destruir um tripóide com um cinto de granadas de mão... O sucesso do modo americano de fazer filmes depende de um factor: a identificação do espectador com o personagem. E para que essa identificação fosse bem sucedida o personagem tinha que ser um herói, alguém que se pgssa admirar e seguir.
11. Para o nacionalismo americano ainda muito ferido depois dos acontecimentos de 11 de Setembro a impotência revelada pelos seus militares ao tentarem repelir os invasores não era algo tolerável. Por isso, Spielberg coloca na cena final do filme um pelotão de soldados americanos a derrubarem um tripóide. O que o realizador não explica é porque é que os invasores desligaram os escudos dos tripóides em pleno território hostil...
12. Por fim, e para não me alongar mais porque é que Tom Cruise consegue cortar o pescoço do olho espião com um simples machado? Aço normal contra liga alienígena e o primeiro revela-se mais forte? Hum... E aliás, porque é que depois da destruição do olho espião os invasores não enviam ninguém a tentar apurar o que se passou?
Encerrando este já longo Post. Não estamos perante o melhor filme de FC de sempre (O Solaris original? 2001?), mas perante um dos melhores dos últimos anos, e certamente perante um dos mais emocionates. Apesar dos erros (a lista é apenas fragmentária) continua a ser um bom filme cujo visionamento recomendo vivamente.
O site do filme pode ser acedido aqui
Publicado por ruipmartins às julho 25, 2005 07:00 PM
Comentários
Agora tenho de ir ver, não é?
Publicado por: Anonymous às julho 26, 2005 11:38 PM
Yep!
Publicado por: Rui Martins às julho 27, 2005 10:15 AM
Antes de iniciar o comentário propriamente dito, gostaria de lhe dar os parabéns pelo seu excelente blog, sempre actual , pertinente , e apaixonante pelos excertos históricos que nos proporciona. Acompanho o blog há cerca de 2 meses apenas mas é já suficiente para ter lido artigos muito interessantes.
Então vamos lá:
Posso dizer que vi o filme, e felizmente não correspondeu às minhas espectativas - esperava ver mais um ficção cientifica igual a tantos outros, mas saí do cinema a questionar-me sobre que género de filme fui ver: teria sido terror, drama, ficção científica, o que foi aquilo?
Depois de retemperar os sentidos abalados com tantos estímulos, cheguei a uma conclusão: Spielberg procurou causar-me uma noite mal dormida, principalmente na parte em que Tom Cruise tem que optar entre o filho e a filha, e também quando opta entre assassinar o homem da cave ou a propria vida e da filha. São estes, na minha opinião os momentos mais intensos do filme...
Permito-me agora, neste seu espaço, esboçar a minha crítica a alguns dos seus pontos relativamente à plausibilidade do enredo;
Ponto nº 1:
Parece-me que a questão do fato, na possibilidade dos aliens respirarem o nosso ar, seria natural- depois de esmagarem com toda a facilidade a vida humana que encontraram, o uso de um fato de combate seria ridículo (para quê, contra seres insignificantes e inofensivos?)para alem disso, eles ainda não tinham detectado ngm na cave.
Ponto nº 4:
Surgir debaixo da terra estando enterrados à milénios? porque não?Será que os temos, por exemplo, submersos sob kms de escura e inexplorada água do mar, confundindo-os com os 99% de leito oceânico que não conhecemos? Talvez seja plausível, na medida em que neste preciso momento podemos estar a ser monitorizados por uma ou mais espécies muito superiores a nós- se a vida na Terra começou ao tempo que começou, pode já ter começado noutros planetas à 10,100xs mais tempo, sendo que os seres que lá habitam até podem ser semelhantes a nós, mas muito mais evoluídos, tendo portanto outra forma de antecipar estados de guerra- eliminando-os , precavendo-se com uma antecipação de milhares de anos- porque não?
Será que "sabem" naquilo que nos podemos tornar?
Ponto nº 6:
concordo plenamente: A existir um contacto com seres superiores, o mais provável é sermos chacinados ou feitos escravos, senão vejamos: Outro dia uma espécie de abelhão enorme veio ao meu encontro na praia, secalhar para sondar se eu seria alguma espécie de planta nova... Minha reacção?Resultou numa morte rápida do bicharoco, e consequente observação com cautela e curiosidade...
Há no entanto a hipotese desses seres provirem de um planeta/sistema com tantos recursos, que não exista selecção natural, e não precisem sequer de submeter vidas de outras espécies para alimentação (aliens herbívoros?)
Ponto 7:
Campo magnético
Antes de mais, a título de curiosidade, fica aqui um link para a universidade da Califórnia sobre campos magnéticos (levitação de objectos metálicos,conceito do comboio japonês)
http://www.o-keating.com/hsr/maglev.htm há muito mais sobre este tema, inclusivamente levitação de objectos à distância, seleccionados de entre outros bastante próximos, etc..
Queria apenas expressar a minha opinião em relação aos campos no filme: o escudo não tem que ser um campo magnético(nem é especificado), há varios tipos de escudos em estudo tanto pelos EUA como por outros países que normalmente levam a melhor aos americanos neste tipo de coisas (Ex. Rússia) . Se fosse magnético, realmente não protegeria contra munições não metálicas, mas a nave poderia operar toda ela como um iman de pólo positivo, principalmente se estivesse em rotação para gerar gravidade artificial (2001 odisseia no espaço:)
A ficção tem antecedido a ciência, pode ser que surja um escudo daqueles qualquer dia..
Ponto 8:
Não vejo como um erro, mas como uma sensibilização, Spielberg é inteligente de mais para errar em questões destas, senão como é que a camara de filmar logo ao principio se manteria ligada depois da tempestada magnética senão para dar um toque de "pânico torres gémeas". A questão das bactérias, segue-lhe o rumo, ao fazer-nos pensar que somos insignificantes perante uma ameaça alienigena mas há ainda vida da qual nunca nos lembramos e da qual dependemos a viver connosco todos os dias. Às vezes é nas mais pequenas coisas que temos que procurar o sentido da vida...
Ponto 11:
Não me parece que tenham desligado, os escudos, estavam danificados pela infecção que assolava todos os outros Tripods.
Ponto 12:
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura :)
Foi meu intuito apenas expressar o que retirei do filme, aconselhando toda a gente a ir ver preparado-se para um drama intenso com um pouco de ficção cientifica à mistura.
Como já disse sou leitor assíduo do blog, e espero fazer mais comentários construtivos e Sr Rui, por favor, continue, principalmente com as suas incursões históricas que tanto me apraz ler e com as quais tenho aprendido.
Abraços
Publicado por: Bruno Leite às agosto 1, 2005 05:26 PM
Antes de tudo: obrigado pelas suas palavras. motivação para prosseguir neste registo da visão do mundo aqui deste "grunho".
Não vou rebater as suas pbservações, até porque são bastantes razoáveis, e revelam um olhar crítico semelhante aquele que uso quando vejo um bom filme de FC... Os maus nem merecem atenção e termos estado tão atentos ao filme só prova que se trata mesmo de um dos melhores filme de 2005...
Género? Hum, se não fosse a cena dos ETs na cave... Apostaria em terror (tipo 1º Alien).
Publicado por: Rui Martins às agosto 5, 2005 12:51 AM